Eu me lembro de uma época em que achava que as pessoas
tinham que ser perfeitas. Que os meus pais tinham que ser perfeitos, que os
meus amigos tinham que ser perfeitos, que a minha família tinha que ser
perfeita.
Peço por favor, que você, querido leitor, não me julgue.
Os anos eram poucos e a minha história de vida também era.
Não que eu tenha crescido lá tanto assim. Muitas vezes eu me pego querendo me
jogar no chão e espernear simplesmente porque as coisas não são como eu queria
que fossem, não dão os resultados que eu esperava que dessem. O que acontece é
que espernear e gritar e fazer um escândalo é infinitas vezes mais fácil do que
repensar todo um plano, toda uma estratégia. Mais fácil que buscar novos
objetivos, melhor ainda, é mais fácil que achar um sentido para esses
objetivos. E é nessas horas em que eu vejo o quão infantil eu ainda sou.
Aprender a olhar a vida com outros olhos, olhos menos
dramáticos e mais realistas, é realmente muito complicado. Já ouvi infinitas
vezes que crescer dói. Hoje eu vejo que não é crescer que dói, o que dói de
verdade é quando você olha para certa situação e não a encontra tão grande como
você costumava achar que ela era.
Olhar para aquele primeiro amor, ainda nos tempos da escola,
e encarar os fatos de que você perdeu um tempo valioso enquanto divagava no
quanto sua vida é difícil e o universo é injusto com você é muito mais difícil
do que culpar o objeto desse afeto por simplesmente não reconhecer o quão
grande é esse tal amor ou não ser capaz de te corresponder do jeito que você espera
(veja bem, o jeito que VOCÊ espera) ser correspondido.
Culpar seus pais por não serem perfeitos é muito mais fácil
do que enxergar que eles fazem o melhor que podem, o melhor que sabem fazer, e
que muitas vezes, enquanto você aprende a ser filho de alguém, esse mesmo
alguém também está aprendendo a ser um pai.
É aqui que dói. Quando você aprende que a culpa por você
sair terrivelmente machucado de alguma situação é única e exclusivamente sua e das
suas expectativas. Você aprende que o que o mundo não vai parar nunca por sua
causa e você não pode simplesmente esperar o
tempo que o seu coração precisa pra se recompor.
Quando você finalmente entende tudo isso, as pessoas dizem
que você cresceu. Eu gosto de pensar que você simplesmente abriu os olhos.
Abriu os olhos e viu que se as coisas não fossem do jeito que são, talvez você
não fosse como é. Você não seria você.
Se aquele seu amigo não fosse tão chato, discutir com ele
não seria tão legal quando o time dele perde pro seu. Se aquele seu amigo não fosse
tão idiota, não seria tão legal sair por aí com um pouco de cachaça na cabeça
pensando em absolutamente nada e rindo de absolutamente tudo. Se aquele seu amigo
não fosse tão implicante, talvez não seria tão legal vestir alguma coisa só pra
ele falar mal e você dizer que veste o que quer, quando quer, como quer e que
ele que vá pro inferno. Se o seu pai não fosse tão rígido, você teria problemas
pra lidar com o mercado de trabalho e com aquela coisa que chamam de
hierarquia.
As pessoas não são perfeitas e é perfeito que seja assim.
Veja bem, se fosse para sermos perfeitos, seríamos uma equação
matemática, uma fórmula de física ou alguma coisa do gênero. Não seres de
humanas.
0 Comentários:
Postar um comentário